terça-feira, 23 de agosto de 2011

Um Conto... Um Vazio... Uma "Lady" Em Cetim...

terça-feira, 23 de agosto de 2011
Faltavam alguns minutos para deixar o trabalho, já não concentrava mais sua atenção no que fazia, olhava atentamente para o ponteiro dos minutos que insistia em se arrastar. Tudo que queria por hora, era largar tudo ali, não conseguiu terminar o que estava fazendo, deixaria para fazer amanhã, afinal nem era nada tão urgente assim. Foi o que fez, faltando dois minutos para cumprir o seu horário, pegou sua bolsa, seu guarda-chuva e seu celular, e foi embora, estava atordoada por conta de pensamentos que lhe consumiam ao longo de quatro dias, por ele, aquele canalha nem ao menos mandara uma mensagem, deixando-a cheia de duvidas, cheia de "por quês".
Pretendia chegar logo em sua casa, alimentar o gato, pois não lembrava se já tinha feito antes de sair para trabalhar. Agora era apenas tomar um banho e pensar na vida, pensar em como tudo era mais leve antes de deixar-se seduzir, em como tudo era mais simples quando era a detentora das situações, quando os homens imploravam por sua atenção e ela se divertia como isso, rindo deles, enquanto se arrumava para mais um encontro com mais um "trouxa", que naquela noite não ganharia nada mais que um beijo - merecido até, era o que costumava pensar - pelos esforços em entreter-la, afinal ainda pretendia estar no comando, era um jogo simples em que indiretamente ela ditava as regras, no tempo que era uma tipica tirana. 
Se enrolando na toalha após o banho, se perdia em pensamentos, desejando tanto não ter conhecido aquele homem, na maldita hora que jogara seu olhar de intrigada para o pouco caso que ele fizera do seu decote e de seus outros atributos físicos que tanto a orgulhavam. Teve uma suspeita de que ele possivelmente fosse gay, mas logo em seguida deixou de pensar nessa possibilidade, ouvindo certa vez ao telefone dizer com um ar sacana para uma possível "peguete", que esta, estava gostosa no último encontro.
Em seu quarto, vestiu uma calcinha confortável e uma camiseta que usava pra dormir, não pensava em sair mais de casa, era uma quinta feira a noite de clima ameno. O gato se lambia em cima da cama, enquanto ela passava um de seus muitos cremes para pele, mais pensamentos amargos lhe dominavam, dando-se conta de que ele fora o único homem que ela levara para dormir em sua cama, - coisa que nunca se permitiu fazer isso com outro -  e pensar nisso a fazia infeliz, pelo desdem daquele homem que fora uma das melhores "camas" de sua vida. Não queria se deitar naquela que outrora fora um ninho de intensos prazeres, onde o cafajeste - aquele que ela não conseguia parar de pensar -  colecionou dela tantos orgasmos e afagos, tirando quase sem esforço todas as suas feições e expressões de vontade, permitindo que ele tivesse acesso em sua íntima entrega. Era praticamente impossível dissimular, ela se doava voluntária, sem restrições. 
Apagou a luz ao sair do quarto, foi rumo a cozinha com seu gato trançando um galope por entre suas pernas, miando. Alimentou o pobre bicho, sentou-se, mordeu um pedaço de queijo, devolveu ao prato, pois a fome que sentia não era de comida. Reparou na meia garrafa de merlot em cima da pia, ao lado uma taça suja de batom com resto de vinho, pensou em beber mas desconsiderou o vinho, porque para ela exigiria uma companhia, coisa que não teria naquela noite, imaginava. Tinha que ser algo mais forte. Lembrou da garrafa de vodka  - presente de algum admirador - que estava encostada no fundo do congelador, serviu com gelo ate um pouco mais da metade do copo e foi pra sala, deixando seu gato no escuro terminar sua primeira refeição do dia. 
Nem ousou em ligar a televisão, antes de sentar no seu sofá  foi ate a pratilheira de cd's que ficava ao lado de um monte bagunçado de livros, procurava por algum disco que fizesse ajudar suportar melhor sua vodka e seu recente amargo emocional. Na primeira fileira não encontrou nada  que lhe agradou, até passar seus olhos pela parte de jazz, não pensou duas vezes retirou um pouco empoeirado, Lady In Satin, da Billie Holiday, essa seria sua trilha, nada mais perfeito para a angustia que estava sentindo, a melancolia cantada por aquela voz tão doída, somada a sua dor, era o que iria imperar naquele ambiente. Acendeu uma luminária, pegou seu celular - em uma ultima agonizante esperança dele se comunicar - junto com a sua bebida, deitou-se no canto oposto a luz velada, ficando na penumbra, cobriu as pernas com um cobertor  que já ficava de prontidão em seu sofá, apertou o play no controle remoto do som, começando I'm A Fool To Want You. Deu uma tragada forte tirando dois dedos da bebida em seu copo, o relógio luminoso de algum aparelho marcava 22h53, e estava infeliz, mas não conseguia chorar, apenas se indagar sobre o que ela tinha ou não feito, que o afastara. E assim foi ate o fim do copo, restando apenas o gelo, fixava seu olhar para janela a sua frente, via através dela pedaços de prédios distantes, e em maior parte a abóboda celeste. Ficou ali estática mirando o infinito azul escuro, tentando encontrar em si mesma respostas para suas cruéis duvidas que faziam tanto mal. Sentiu seus olhos pesarem uma certa hora, assim caindo em um sono profundo, isso foi antes do disco terminar. 
Despertou com a claridade da manhã de um céu cinza nublado e chuvoso, o relógio cintilava 07h27, olhou para seu celular, nenhuma chamada perdida, nem uma mensagem, sua angustia permanecia ainda, bem nauseante. Se deu conta de que a tristeza dominava ainda mais o seu interior. Foi então que as primeiras lágrimas lhe veio aos olhos. Várias outras começaram a rolar junto com as gostas de chuva que escorriam pelo vidro da janela do lado de fora. Era uma sexta feira, naquele dia, ela não foi trabalhar... sentia-se doente... perdidamente apaixonada!



Artur César        
23/08/2011


                                             Billie Holiday, Lady In Satin - I'm A  Fool To Want You


5 comentários:

Luna Sanchez disse...

Medo desse teu texto, Artur, muito medo!

São tantas as semelhanças com a minha vida que me sinto nua ao comentar...rs

Ter o controle da situação é bom mas não é nada que se compare ao prazer de ver esse mesmo controle arrancado das mãos por alguém que definitivamente saiba fazer a coisa, que tenha poder pra isso, poder esse, claro, concedido por nós, já que tudo o que "nos fazem" tem a nossa autorização, ainda que não seja através de uma procuração por escrito.

E o risco que se corre é esse, o de ficar entregue a algo que não sabemos quando, como e nem se vai acontecer. A dor é inevitável mas eu ainda acho que vale a aposta.

Um beijo.

Artur César disse...

Luna, minha nova amiga, que outro objetivo homens que amem as palavras talvez tenham mais, se não "despir" uma leitora com palavras (nesse caso em especifico por se tratar de uma mulher na historia)?

embora minha auto-critica não me permita mais que um obrigado, por ter gostado do conto, não permitindo ficar orgulhoso por de mais, por querer melhorar mais ainda nessa arte de contar gêneros e atitudes humanas, mas sem almejar uma perfeição, pois quero errar ate envelhecer (vixi vai entender? =S hehehe)

Brincar de sedução da nisso as vezes! Os riscos no inicio estão lá para se analisar, medir, pesar etc... um velho cliché de que "quem brinca com fogo se queima" se aplica em casos.
quando alguém repele esse tal poder que se tem, tirando do "salto" a pessoa acaba tendo a noção que o poder por fim não domina todos, e que pode ser olhada(o) por alguém de cima... dai pra frente é so um aprendizado pra se saber o quão se é forte pra si mesmo(a), recolhendo os próprios cacos.

muriel disse...

Li este texto a primeira vez a alguns dias. Li outras vezes de lá pra cá e não consegui postar nenhum comentário então. Hoje estou lendo de novo e por uma infinidade de motivos e também pq algumas coisas de forma sutil e talvez nao tão delicada foram ditas, estou aqui escrevendo.... Correr riscos quando tudo se está bem... correr riscos quando nao se sabe as consequências das atitudes.... correr riscos quando não se é completamente só...Talvez, e só talvez....precisa-se ter coragem pra realmente dizer que que não quer correr riscos....

Lívia Azzi disse...

Ah, os contos, Artur!! Meu calcanhar de Aquiles. O pote de ouro que visualizo além do arco-íris. Inventei uma personagem, quer dizer duas... uma é meu ego, a outra meu alterego... Tentei unir os enredos, mas tive que me render ao caos. Só mesmo muita transpiração para essa arte.

Enquanto pensava nessas experiências, visualizei sua lady em cetim; entendo essa angústia que a comente. É por não ter acontecido nada, que ela deseja tudo. É a incerteza que faz com que ela se sinta tomada.

Não saber das coisas sempre aguça aquilo que temos de mais intocado...

Adorei a música, tenho uma amiga muito querida que ama jazz.

Artur César disse...

Fico feliz que tenha gostado Lívia, de verdade foi o meu primeiro conto, e tentei retratar neuroses e incertezas, angustia que molda um estado de espirito beirando uma agonia. Não ter o controle de uma situação é profundamente frustrante para algumas pessoas, que não lidando bem com isso viram vitimas de si mesmas, se consumindo ao todo ate que a dor se dissipe pra nascer um novo "eu".

que bom que gostou da musica, Billie H. é sempre incrível a forma como transpõe o sentimento na canção. Sou suspeito pra falar sou fã dela.

é sempre bom trocar "figurinhas" com amantes do jazz, mande um "Olá" pra sua amiga! =]

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